Tendo sido concebido para homenagear o dia do músico, o Novembro Musical não poderia terminar sem uma entrevista com um profissional da esfera musical da nossa dublagem, não é? E não é um profissional qualquer: é dos mais gabaritados que temos até hoje e que marcou gerações com seu trabalho.

Residente e professor de música no Rio de Janeiro, em julho de 2016, entrevistei Marcelo Coutinho e, caso você nunca tenha ouvido falar dele ou nunca tenha visto seu rosto, com certeza, já ouviu algumas das suas versões/adaptações musicais ou algum personagem dublado por ele. Vamos conferir juntos essa entrevista sensacional? 😉

Com uma vasta experiência no ramo artístico, Marcelo Coutinho é ator, cantor, dublador, diretor de dublagem, versionista/letrista e diretor musical. Trabalhou durante anos para estúdios renomados como Delart e DoubleSound, realizando adaptações/versões de canções de produções da Disney e da Dreamworks, assinando também a direção musical das mesmas. Como dublador, emprestou sua voz a personagens memoráveis como Quasímodo, do longa O Corcunda de Notre Dame; Jack Esqueleto, de O estranho mundo de Jack e a voz cantada de John Smith, da animação Pocahontas, da Disney.

Espero que você curta essa entrevista fenomenal e não se esqueça de deixar o seu comentário. Muito obrigado por ter acompanhado a programação especial do Novembro Musical e, no mês que vem, voltamos com nossa programação normal recheada de posts sobre dublagem e tradução para dublagem. Aproveito e deixo minha singela homenagem a todos os nossos músicos, versionistas, cantores e diretores musicais que continuam fazendo tantas canções se eternizarem por gerações em nosso idioma. Um grande abraço e até o próximo post! 😉

Marcelo Coutinho

Paulo Noriega: “Marcelo, por favor, eu gostaria que você se apresentasse em linhas gerais e contasse como você entrou no ramo da dublagem.”

Marcelo Coutinho: “Meu nome é Marcelo Coutinho, eu sou formado em canto lírico pela escola de música da UFRJ e, paralelamente a isso, também sou dublador e trabalhei com dublagem e como diretor de dublagem desde 1991. Também sou cantor e sou professor da Escola de Música da UFRJ. Quanto à dublagem, entrei no ramo por conta da música, porque, na época, meu sogro, Maurício Seixas, era tradutor na Delart, um estúdio do Rio de Janeiro. Lá começaram a fazer os testes para o filme A Bela e a Fera e, no filme, apareciam alguns coros líricos nas canções.

Na época, o diretor musical do estúdio vinha de uma formação mais popular e não entendia muito da parte lírica. O meu sogro disse para o estúdio que eu era do ramo lírico, regia coros e que eu poderia ajudar nessa empreitada na parte dos coros. E assim foi, eu tive uma reunião com o estúdio, peguei as partituras e organizei os coros da Bela e a Fera. Entrei, nunca mais parei e, nos anos seguintes, eu passei a dirigir a parte musical dos filmes da Disney, de Aladdin em diante e, em alguns, eu também fui responsável pela adaptação das canções, além de dirigi-las.”

Paulo Noriega: “Marcelo, você poderia contar um pouco sobre a sua formação?”

Marcelo Coutinho: “Em relação à minha formação, eu sou músico desde criança, eu cantava num coro profissional infantil de Petrópolis, que se chamava “Canarinhos de Petrópolis”. Isso foi em 1976 e lá também aprendi violino e passei a adolescência toda estudando música. Quando cheguei na época do vestibular, eu optei por fazer canto, porque eu era solista no coro e gostava de cantar. Aí eu fiz a minha graduação na UFRJ e, depois de alguns anos, eu me formei e logo depois fui fazer um curso de aprimoramento técnico na Áustria, em Linz. Durante os dois anos seguintes, de 1992 a 1994, eu estive na Áustria me aperfeiçoando na técnica do canto e tudo mais.

Em paralelo, eu estava cursando o meu mestrado também e, atualmente, eu faço doutorado também na UFRJ na parte de práticas interpretativas, né? E enfim, fiz vários cursos e trabalhei com vários diretores como Pedro Paulo Rangel na parte de ópera, de musical no teatro com Hamilton Vaz Pereira, e outros diretores que me ajudaram muito no meu ofício como ator. Isso me deu bagagem para poder ser dublador e diretor de dublagem também, e tudo mais. Participei também de Master Classes fora do Brasil, enfim, foram muitos anos, muita coisa. (ri)”

Paulo Noriega: “Você faz adaptações/versões de quais idiomas e qual é o seu nível de proficiência nesses idiomas? Qual é o nível de importância que você atribui ao domínio de outro idioma para exercer a função de versionista?”

Marcelo Coutinho: “Por ser cantor lírico, eu lido frequentemente com alguns idiomas. Eu falo inglês, espanhol, italiano e estudo alemão, apesar de não ser proficiente. Canto em todas essas línguas, porque, por ser cantor lírico, preciso trabalhar muito bem a minha fonética. Na dublagem, eu já trabalhei com versões do inglês, do espanhol, do francês e do italiano. Como eu venho dessa área musical, e a prosódia sempre esteve muito presente na minha vida, isso não impede que eu possa trabalhar em cima das traduções dessas outras línguas, mesmo as que eu não falo com tanta proficiência.

Idealmente, em uma escala de zero a dez, no caso da língua inglesa, acho que a importância de saber inglês é dez. Você não precisa dominar todas as línguas estrangeiras, mas, no caso do inglês, é importante porque 90% das produções em dublagem são em inglês. Faz a diferença. Então assim, é claro que, quanto mais você souber a língua original, melhor será o seu resultado. O português também é importante. O seu repertório em português tem que ser excelente, principalmente porque a gente lida com rimas nas canções, né? Você fica preso a certos parâmetros das músicas, então quanto mais vocabulário você tiver, mais rico será o seu resultado, sem sombra de dúvida.”

Paulo Noriega: “Perfeito. E Marcelo, como diretor musical, quais foram seus principais trabalhos?”

Marcelo Coutinho: “Desde que dirigi os coros de A Bela e a Fera, eu dirigi as canções de Alladin, O Rei Leão, Pocahontas, A pequena sereia na regravação das músicas quando houve a remixagem com as novas vozes… o que mais? O estranho mundo de Jack, Hércules, Mulan, Tarzan.  Ah, e em Mulan, adaptei as músicas também.”

Para a Fox, dirigi as músicas de Anastácia, A princesa Encantada... Para a Dreamworks, O Príncipe do Egito em que fiz as músicas e as dirigi e mais recentemente, Festa no Céu, em que eu adaptei as músicas e as dirigi também.

Paulo Noriega: “E os estúdios para os quais você trabalhou foram a Delart e Doublesound, correto?”

Marcelo Coutinho: “Isso mesmo. Comecei na Delart por conta do meu sogro, como eu já disse, né? Comecei minha carreira de versionista e diretor musical lá. Trabalhei lá por uns 4 anos e depois fundei a DoubleSound, onde eu trabalhava como diretor de dublagem, letrista e diretor musical. Muitos dos desenhos da Disney, a parte musical deles, pelo menos, era gravada na Double, e os diálogos na Delart. Inclusive, a DoubleSound foi a casa da Dreamworks durante muito tempo, pois o primeiro desenho de importância deles foi O Príncipe do Egito, e eles queriam que a dublagem desse desenho e dos outros fosse feita no estúdio que lidava com as produções da Disney aqui no Brasil.”

Paulo Noriega: “Marcelo, quais são os principais profissionais com quem você costuma se envolver na sua cadeia de trabalho na dublagem.”

Marcelo Coutinho: “Dependendo do projeto, é comum haver um diálogo com o tradutor para dublagem dos diálogos dos filmes, né? Porque podem existir motes ao longo do produto, então uma fala pode se repetir numa música e o que está na música pode virar uma fala depois, então é preciso perceber esses motes. Eu costumo perguntar para os tradutores como eles dão algumas soluções e analisamos juntos para ver se funciona ou não.

O cliente também costuma querer ouvir as soluções, então o tradutor precisa escrever a tradução dele em português e em inglês nos KNPS, que são arquivos em excel, para o cliente saber como foi a solução dada aqui e dar o aval deles lá. A gente tenta fazer logo aqui da melhor forma possível, para que a ideia seja logo aceita lá fora, né? Perde-se tempo preenchendo esses KNPS e fora as outras coisas que precisam ser coordenadas, tem os prazos e tudo mais. É preciso haver o máximo de diálogo possível porque dependendo, obviamente, é mais fácil trocar a solução dada no diálogo do que trocar um trecho inteiro de uma música para fazer sentido com o diálogo.

Tem muito custo envolvido nessas produções, especialmente as de cinema, então a gente tenta fazer de modo que as coisas não fiquem voltando, mas já houve vezes em que voltaram, não tem jeito. Outra figura fundamental além do tradutor dos diálogos é ter contato com o diretor de dublagem também, o diretor da parte dos diálogos.

Quando eu atuo só como diretor musical e não dirijo os diálogos, eu preciso saber todas as deixas feitas com os personagens, por exemplo, ainda mais se for o mesmo dublador que faz os diálogos e canta as músicas também. É um trabalho em conjunto mesmo e como, geralmente, a parte de diálogos é terminada antes, o contato do diretor musical com o diretor de dublagem é fundamental.”

Paulo Noriega: “Mas enquanto diretor musical, como se dava a dinâmica com os versionistas quando você não era o responsável pela adaptação/versão das canções?”

Marcelo Coutinho: “Em algumas produções, passei a colaborar com eles porque como a música exige um pouco mais de aprimoramento na parte da prosódia, divisão silábica, muitos dos versionistas não tinham uma formação musical, apesar de serem ótimos tradutores. Então, às vezes, eu intervinha para que a música pudesse sair melhor. É um trabalho de equipe, então quando acontecia isso, eu ajudava, nós nos ajudávamos nesse processo.”

Paulo Noriega: “E o que você destaca como sendo as principais diferenças entre dirigir os diálogos e dirigir as canções?”

Marcelo Coutinho: “Dirigir músicas é um processo mais demorado porque é necessário você dar a música pro cantor/dublador antes, tem que ensaiar com ele, passar tudo, ver a afinação, a extensão vocal, enfim, uma série de fatores que precisam ser vistos e que demoram e exigem mais do que a gravação de um diálogo.”

Paulo Noriega: “E como costuma se dar a remuneração? É por música, é um valor fechado…?”

Marcelo Coutinho: “Olha, normalmente, é por música, ganha-se por música. Por cada música, ganha-se X.”

Paulo Noriega: “E isso independentemente da dificuldade que ela te apresente ou da duração?”

Marcelo Coutinho: “Sim, sim, independentemente desses fatores.”

Paulo Noriega: “Marcelo, na dublagem, uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos tradutores é a relação de “fidelidade” à imagem ou ao texto, ou seja, de traduzir de forma a ser totalmente coerente com o texto, com as imagens, ou chegar num meio termo. Quando falamos das músicas, você enxerga esse mesmo desafio e como você lida com ele?”

Marcelo Coutinho: “É como eu sempre digo, né, Paulo? Cinema é o quê? É imagem. A imagem diz tudo, a imagem é uma coisa muito forte. Você tem que estar atento a tudo o que acontece ali, então, sim é um desafio, mas não pode nunca perder a imagem de vista, não só na tradução dos diálogos como na hora das músicas também.”

Paulo Noriega: “Nessa esfera musical da dublagem, você observa quais principais mudanças dos últimos anos pra cá?”

Marcelo Coutinho: “Bom, por exemplo, eu acho que hoje você tem mais dubladores que cantam também, porque investiram nisso e, hoje em dia, o teatro musical no Brasil é uma realidade. Hoje tem mais gente preparada pra poder cantar em dublagem, tem mais profissionais para executarem esse papel dentro do ramo da dublagem.

Antigamente, havia poucos versionistas também, eram poucos que faziam isso. A gente tinha Aloysio de Oliveira, por exemplo, que foi um grande expoente na área de dublagem, mas hoje se tem muito mais profissionais trabalhando e que buscam aprimoramento. O mercado hoje tem ótimos profissionais disponíveis, tanto pra parte das músicas quanto pra dublar, cantar, etc.”

Paulo Noriega: “Marcelo, com certeza, você tem atores/dubladores com quem gosta de trabalhar recorrentemente e de quem você admira o trabalho. Mas você tenta trazer novas vozes pra trabalhar com você? Onde costuma buscar esses novos talentos?”

Marcelo Coutinho: “Nos teatros, principalmente. Hoje em dia, o teatro musical é uma realidade no Brasil e tem muita gente nova fazendo e fazendo bem. Então eu vou aos musicais ver quem está cantando, observar as novas vozes do momento e dessa meninada que está chegando com muita força e com muita vontade.

Só que, é claro, a dublagem funciona de forma diferente, né? A pessoa não vai chegar e cantar um solo, ela vai ter que cantar e trabalhar em cima de algo que já existe e tem gente que não consegue se enquadrar nesse formato. Lá no palco, a pessoa é uma maravilha, mas chega no estúdio pra gravar e se treme toda e não sai nada. Cabe ao diretor usar da experiência dele também pra acalmar a pessoa, passar segurança e guiar também, porque a pessoa não canta tudo de uma vez só. A gente vai e repete uma, duas, três, quatro vezes até sair. Então é isso, o teatro é o principal local pra se buscar novas vozes e bons profissionais.”

Paulo Noriega: “E Marcelo, por fim, observando a sua carreira como um todo, como você encara as produções com as quais você já lidou? Ao longo do tempo, principalmente com as canções da Disney que são, na minha opinião, os expoentes de músicas em dublagem, você foi se dando conta de que gerações e gerações iriam cantar todas essas músicas que você adaptou pro nosso idioma?”

Marcelo Coutinho: “Olha, é difícil a gente falar do nosso próprio trabalho (ri). Eu sempre acho melhor recorrermos aos outros e ver o que as outras pessoas acham. Eu fico feliz porque as pessoas falam com muito carinho de todas essas produções e de todas essas músicas que eu fiz. Sabe, Paulo, tudo o que eu fiz foi pra que quando chegasse no momento da gravação, tudo ocorresse da melhor forma possível. Depois que se grava, não se mexe mais.

Eu sempre dei o melhor de mim, mas claro que tem coisas hoje em dia que eu poderia ter feito de forma diferente, eu acho que isso ocorre com qualquer profissional da área. No entanto, de modo geral, nesses vinte anos que se passaram, acredito ter feito trabalhos muito legais, mesmo com algumas limitações tecnológicas que existiam no começo da dublagem. Eu acho que as pessoas que ouvem meu trabalho podem te dizer melhor (ri), mas eu amo as coisas que eu fiz. Foram produções belíssimas de um momento mágico das animações no cinema e de uma época de várias transições tecnológicas pelas quais eu passei nesse mercado.

Até hoje, quando alguém descobre que eu trabalhei em Aladdin e em O Corcunda de Notre Dame, por exemplo, se emociona porque remete à infância. Eu gosto de acreditar que, quando a música é boa, ela fica na cabeça das pessoas, então acho que um bom caminho foi trilhado ao longo desses anos.”

Paulo Noriega

Sou autor do blog Traduzindo a Dublagem e tradutor atuante nas áreas de dublagem e editorial. Amo poder compartilhar meu conhecimento a respeito do universo da dublagem e da tradução para dublagem. Seja bem-vindo a este fascinante universo!

2 Comentários

Daniela

3 de dezembro de 2017

Que achaaaaado do seu blog. Devoraaaando as postagens, literalmente! Muito obrigada pela gentileza em compartilhar e informar. Estudando muito para, espero muito em breve, ser sua companheira de profissão (já sou tradutora e intérprete, mas agora estou me especializando em tradução para dublagem). Certamente suas postagens serão valiosíssimas. Grande abraço e sucesso sempre!!

    Paulo Noriega

    5 de dezembro de 2017

    Daniela, obrigado pelo seu comentário. Espero vê-la no mercado em breve! 😉 Beijo grande.

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